sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Preto no Branco

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Moçambique perdeu a 11 de Agosto de 2012 um dos seus jornalistas de referência, com a morte de Kon Nam, 72 anos, uma figura dos momentos decisivos da actividade, no país, da época colonial ao multipartidarismo, passando pelo período revolucionário pós-independência.
Resultado de imagem para kok namO trabalho de Kok Nam foi eternizado em um livro. A obra foi publicada pela editora Marimbique. As imagens contam o percurso histórico deste fotojornalista. Mas não é só de fotografias que o livro Preto no Branco é preenchido, existem nele relatos de individualidades que directas ou indirectamente estão ligadas ao percurso do nosso fotógrafo. Delas destacamos Alves Gomes, Calane da Silva, Graça Machel, Luís Cabaço, Luís Bernardo Honwana, Mota Lopes, Nelma Saúte, Patrícia Haye entre outros.Com cerca de 88 páginas, o livro traz a interpretação do trabalho deste fotógrafo que marcou pelo seu trabalho e jeito característico de ser.
“De trato fácil, incrivelmente jovial, cultivando sempre a modéstia e a humildade, os seus colegas e amigos guardam dele um grande sentido de profissionalismo e rigor, a defesa tenaz da integridade e dos princípios”, descreve um comunicado enviado pelo mediacoop no dia da morte de Nam.
O seu acervo fotográfico, espalhado pelos quatro continentes, é um dos mais importantes bancos de imagem disponíveis sobre Moçambique. Gomes é o coordenador do livro, além desta função, a família de Kok lhe deu função: “Sou responsável por preservar o espólio (arquivo de fotografias) de Kok Nam”. Alves Gomes têm de classificar as fotografias e fazer o registo na SOMAS, mas as recordações retardam o seu trabalho. “Sempre que vejo as fotografias, é complicado ele foi para mim um amigo, vem-me recordações, fico horas a reviver aqueles momentos”.
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Para que este espolia existisse, foi vital o papel da Arquivista Narcézia Massango. “Trabalhei na Revista Tempo como Arquivista. Ajudei a conservar boa parte das fotografias de Kok Nom, mas algumas perderam-se com as transformações, mudanças de edifício, que a revista passou”.
Kok Nam é filho de imigrantes camponeses da província chinesa de Cantão. Nasceu em 1939 em Lourenço Marques, actual Maputo. Aos 17 anos iniciou-se como jornalista. Nos anos 1960 passou de órgãos (Diário de Moçambique e Voz Africana) tentavam furar o muro de silêncio colonial. 
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Na década 1970 esteve na fundação da revista Tempo o berço de uma geração de jornalistas inconformistas. Com um currículo invejável, já publicou no Expresso (Portugal) e no "The New York Times" (Estados Unidos da América).
Durante o período revolucionário, «dominado pelo partido único, a Frelimo», permaneceu na “Tempo”. Em 1990, sua casa, foi redigido o manuscrito do documento "O direito do povo à Informação", exigindo a liberdade de imprensa como um direito constitucional.
Em 1991 com os seus colegas Naita Ussene, Fernando Manuel e António Elias (já falecido) criou a Mediacoop, então uma cooperativa, que lançou o diário por fax Mediafax e o semanário Savana, de que era director desde 1994 até a sua morte em 11 de Agosto 2012. Em reconhecimento a sua verticalidade Kok Nam é até hoje director emérito do Semanário Savana.

Para além da facilidade em manejar a máquina fotográfica, Kok Nam tinha outro talento. “O panela, como era chamado, comia que era uma maravilha. Bom cozinheiro, os seus dotes culinário eram uma da sua marca” recorda Calane num tom sorridente. Kok Nam deixou dois filhos, a Ana Michelle e o Nuno Miguel e um legado no fotojornalismo nacional.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

“Caribean Queen”

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O concerto do “Moments of Jazz” e o primeiro do lendário Billy Ocean em Maputo. Será, claramente, o realizar de sonhos de muita gente. Pelo tempo que a publicidade circula nas redes sociais, houve reacções positivas dos que já marcaram no calendário o dia D, ou, se quisermos, o dia B: 22 de Setembro.
Numa entrevista via correio electrónico com Ocean disse estar a preparar este espectáculo com todos os detalhes e não vê a hora de aterrar no solo moçambicano. A vedeta internacional elaborou respostas curtas, mas com o essencial para dar a entender a satisfação de vir ao país. Disse estar a preparar uma grande festa e promete levar consigo todo o colectivo.
O artista está, uma por uma, a seleccionar as suas músicas favoritas. Não só as mais aclamadas, como também aquelas que influenciaram a sua vida e tornaram-lhe esta vedeta mundial que em Setembro será aplaudida por um auditório composto por cerca de cinco mil pessoas, num concerto que se prevê com lotação esgotada.
Imagem relacionadaOcean diz ter a bênção merecida para fazer vibrar os moçambicanos e os demais que irão testemunhar este concerto. E enche-se de orgulho por saber que vai fazer parte de uma iniciativa que já trouxe lendários da música internacional.
“Estou excitado para vir”, disse, traduzido do inglês. Aliás, o seu vídeo de propaganda revela-nos um músico verdadeiramente empolgado em escrever uma linha na sua história aqui na capital moçambicana, cidade que pouco a pouco vai mergulhando no ciclo de grandes eventos musicais, tal como sucede nas cidades mais desenvolvidas.
Questionado sobre quem era a rainha que lhe inspirou a criar “Caribean Queen”, uma das faixas mais ouvidas do seu gigante repertório, o artista respondeu apenas o seguinte: “just my wife” (apenas minha esposa). Mas, ainda assim (e com todo o respeito), é certo que ele é “rei” de muitas fãs. Parte delas estão em Moçambique. Com certeza, vão cuidar do rei da “Rainha do Caribe” como manda a regra de etiqueta e de bom senso. Afinal, os moçambicanos são acolhedores por excelência.
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Foi uma entrevista relativamente curta. De propósito, afinal, não podia esgotar todos os trunfos preparados para o espectáculo através deste meio. Ainda assim, notou-se um homem de família e preocupado com os seus seguidores, que há muitos anos vão acompanhando álbum a álbum (que não são poucos) e a sua trajectória partilhada com diversos povos pelo mundo.
Aos moçambicanos, o músico pede que se juntem à festa que terá lugar no Campus da UEM. Os bilhetes à venda desde o mês de Março já vislumbram a presença em massa do público deste concerto que conta com a realização da BDQ Concertos e com o alto patrocínio da Vodacom, BancAbc e a petrolífera Engen.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Casa do Império ditou as independências

A Texto Editores e a Associação dos Médicos Escritores e Artistas de Moçambique (AMEAM) publicaram recentemente o livro do Prof. Hélder Martins intitulado Casa dos Estudantes do Império, Subsídios para a História do seu período mais decisivo (1953 a 19619).
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Hélder Martins concentra a sua análise no período 1953-1961, que ele considera o período mais decisivo da vida da CEI e que ele viveu intensamente e onde teve uma participação activa. Porém, também se refere a alguns antecedentes deste período. A sua análise limita-se à Sede, pois foi aí a sua vivência. Este livro é um testemunho das suas memórias daquilo em que participou, mas também confrontou as suas memórias com as de outros, quetambém participaram na vida da CEI. Também fez uma intensa pesquisa bibliográfica. Este livro é o resultado de tudo isso. Sempre apoiado no rigor dos factos históricos, o autor desmistifica alguns mitos que se criaram à volta da CEI. “Aspecto inovador nessas análises feitas foi confrontar alguns mitos que davam uma ideia de geração fantástica, que se entregou à luta e são quase heróis. E que saíram como dirigentes da luta de libertação dos seus países. Isso foi resultado do saudosismo e emoção do momento. Mito é perigoso porque a juventude tem outros desafios. Em Moçambique temos os desafios da corrupção, nepotismo. Não vou falar das dívidas ocultas. Estamos num sistema que beneficia alguns. A exclusão social é vista na maioria dos moçambicanos. O mito perigoso deve ser desencorajado e combatido. A juventude tem de fazer algo para combater os problemas actuais. É preciso desfazer este mito. O autor analisa também a influência da CEI na luta de libertação de cada uma das ex-colónias portuguesas e conclui que foi em Moçambique que a influência da CEI, como escola de nacionalismo africano e de consolidação da consciência anticolonial, foi “Mito é perigoso porque a juventude tem outros desafios” menos intensa. “Havia pessoas na Casa que não queriam saber de política. Tínhamos carácter humano. Não éramos heróis. Essa ideia alfobre do colonialismo africano aparece em muitos documentos de que na Casa nasceram os dirigentes africanos. E que se não houvesse a casa do Império não haveria luta pela independência.
Imagem relacionadaMoçambique é o país com menos influência na Casa do Império. Houve em Angola. Faço análise de cada país como ninguém fez. O livro tem 260 páginas. E ninguém escreveu sobre a Casa dos Estudantes do Império com essas páginas em termos de quantidade. Mesmo as teses. Sobre a qualidade as pessoas dirão”, encaracola Hélder Martins. Neste livro, o autor utilizou as suas memórias de activista da CEI (Casa do Estudante do Império), mas sobretudo fez um importante trabalho de pesquisa histórica, o que lhe permitiu documentar o seu texto com muitas fotos e digitações de documentos, nomeadamente, com as digitalizações do Diário do Governo com as decisões administrativas sobre a CEI. “A história constrói-se com factos e depois a sua interpretação não pode fugir a esses factos.
Quando a PIDE fechou a Casa levou todos os documentos e não aparecem. Devem estar na
Torre do Tombo. Houve duas teses de doutoramento sobre a Casa na Itália e Portugal e trabalhos de jornalismo investigativo. O erro é que todos eles não foram consultar o Diários do Governo”, aponta Hélder Martins. O Prof. Hélder Martins revela neste livro a verdadeira data e circunstâncias da criação da CEI, bem como descreve a complicada luta para pôr fim à Primeira  Comissão Administrativa. O autor também põe em evidencia, com grande detalhe, o trabalho realizado pelas cinco direcções democraticamente eleitas pelos estudantes, entre Fevereiro de1957 e Dezembro de 1960. A sua aturada pesquisa histórica permitiu-lhe afirmar que nunca houve nenhuma decisão administrativa a legalizar o encerramento da CEI. 
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“Salazar deu ordem à PIDE para ir lá e que os ministros legalizariam as decisões. Não há uma decisão administrativa nem antes e depois sobre o encerramento. O estado fascista era bastante burocrata para dar legalidade. Nunca foi legalizado o encerramento da Casa dos Estudantes do Império. O Prof. Dr. Fernando Vaz é o único Presidente da comissão administrativa ainda vivo”, acrescenta. No prefácio do livro, o Prof. Dr. Fernando Vaz escreve: “este livro de memórias é o testemunho duma etapa histórica da vida de muitos estudantes, que das Colónias vinham para Portugal fazer  os estudos superiores”. “O Dr. Hélder Martins foi um aluno distinto e desenvolveu grande actividade política e associativa. Nesta obra não deixou ficar os seus créditos em mãos alheias!”. “Para a elaboração deste livro, o Dr. Hélder Martins recolheu contribuições de muitos colegas nossos, contemporâneos, pesquizou exaustivamente tudo o que se escreveu sobre a CEI, o que permitiu grande rigor histórico em todas as descrições que faz e, sobretudo, nas datas dos principais acontecimentos”, Grafa Fernando Vaz.

A.S

quinta-feira, 13 de julho de 2017

“Kabuebue”

Foto de Abix Candrinho.
O actor de teatro do Grupo de Teatro Retratista(GTR) de Quelimane está a fazer “furor” nas redes sociais, sobretudo facebook e youtube por causa das suas aparições em vídeos que tem vindo a produzir nos últimos tempos.

Trata-se de Abix Candrinho, jovem actor que tem brindado os seus fãs com trechos de vídeos de vários episódios da sua autoria.Abix, residente em Quelimane já tem mais de 400 seguidores e cada publicação que faz, os seus seguidores ficam atentos e procuram sempre interagir.

Foto de Abix Candrinho.Depois do recente vídeo sobre igreja, denominado “O impio” https://youtu.be/xNzA5Kv7QdM, que foi partilhado por milhares de pessoas, Abix Candrinho foi mais além e brindou os seus seguidores com mais uma sobre o valor de estudar onde ele(Abix) aparece na peça como o menino “Kabuebue”, um menino que tanto queria estudar mas que o avó nunca permitiu. Uma história emocionante que só vale pena seguir nas plataformas atrás mencionadas.Aliás, não é único sucesso deste jovem que faz parte dos Retratistas e cada dia que passa, o actor tem brindado os seus seguidores com inúmeras gargalhadas, mas todas mostrando a nossa realidade.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Tio Turutão!!!

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Era uma vez um menino que amava brincar ao telemóvel e não gostava de ouvir estórias e nem de brincar com outros meninos no quintal. Ele tinha uma avozinha, que gostava muito dele e que ficava triste ao ver o menino a “derreter o cérebro” em frente à telinha do aparelho electrónico. Preocupada, a velhinha decide contar ao menino a estória da sua infância. Juntos, avó e neto, embarcam para um passado não muito distante.E, foi com a encenação do retrato da infância moderna versus a infância antiga que os TP50 abriram o show de celebração do Dia Internacional da Criança e do lançamento do álbum “Rebricando um tributo ao tio Tirutão – o amigo das crianças”(foto à direita).
Jogar a “neca”, a “matacosana” e ao mbalelé; ouvir as estórias da vovó e aprender as palavras mágicas como “bom dia” e “obrigada”, é um cheirinho das coisas que os artistas do TP50 ofereceram as crianças e pais, num espectáculo cheio de cor e luz.A festa foi um momento de nostalgia para os adultos e de descoberta para a pequenada que não conhecia canções como “os dias da semana” e “marrabentinha”. 
Xixel langa, Hortêncio Langa e Roberto Chitsondzo são alguns dos músicos que deram a voz aos temas do tio Turutão e ensinaram a pequenada a poupar a água, a ser asseados e bem-comportada. Para estes, fazer parte do projecto não significou, apenas, realizar mais um trabalho, mas o cumprimento do seu dever de educar as crianças e sociedade através da música.
Resultado de imagem para António PristaO artista António Prista (antigo Director do Instituto de Educação Fisíca) revelou que a ideia de fazer um CD infantil surgiu no dia 1 de Junho, do ano passado, quando o grupo se apercebeu da ausência de músicas para crianças. Ao seu entender, o desenvolvimento cognitivo da criança deve-se a vários factores como o estímulo a imaginação e aos sentidos. E, artes desempenham um grande papel nesse processo. “As crianças devem ser contadas estórias, devem desenvolver o imaginário, ouvir música apropriada, pois, as referências educativas vêm, também, da arte” detalhou.Com o lançamento da iniciativa, o agrupamento espera ver a experiência replicada por outras pessoas. “O recado que deixamos para os pais, educadores e artistas é que façam música para a criança e apropriada à sua idade”, frisou.O show contou com a colaboração de mais de 50 artistas entre adultos e crianças. A produção do álbum, que contam com 15 faixas de músicas regravadas e originais, levou um ano.Tio Turutão é pseudónimo do falecido Ernesto Edgar de Santana Afonso, figura que se destacou nas décadas 70 e 80, na produção de programas na Rádio Moçambique. Durante a sua carreira, dinamizou a produção de teatro radiofónico e música infantil, tendo deixado como legado o álbum “Bons Sonhos”.Para o futuro, os TP50 esperam continuar a levar o espectáculo para mais crianças e, se possível, gravar um CD com temas infantis, anualmente (já está a ser idealizado com músico Fernando Luís).




quarta-feira, 26 de abril de 2017

“Fantasiamos poéticamente os espaços”

José Forjaz é dos rostos mais consagrados do ramo da arquitectura no país. Recentemente, com a sua equipa José Forjaz Arquitectos, expos Projectos no papel no Centro Cultural Português, em Maputo – segue depois para Beira, este mês –, pretexto para esta entrevista. Partindo de 40 obras que estiveram expostas, algumas com 50 anos, nunca construídas, Forjaz refere-se ao trabalho arquitectónico como uma forma de fantasiar a qualidade poética dos espaços, como um meio para ler as sociedades e de nelas introduzir mudanças. E o arquitecto vai longe ao referir-se que, em Moçambique, a maior parte da arquitectura construída ainda é espontânea, feita por saberes tradicionais, sem deixar de sublinhar a incapacidade administrativa que o Conselho Municipal de Maputo tem para tomar conta de uma cidade que cresce tão depressa do ponto de vista populacional. Nisso, José Forjaz expressa um desagrado atinente à Praça da Independência: “um desastre urbano, tanto esteticamente como em termos de circulação automóvel”.

É co-autor da exposição Projectos no papel, exposto no Camões este mês. Por quê mostrar agora, pela primeira vez publicamente, 40 projectos não construídos por si e pela equipa José Forjaz Arquitectos?
Resultado de imagem para jose forjazNa nossa vida profissional, cerca de 50% dos trabalhos que fazemos nunca é construído. Por variadíssimas razões. Então houve uma necessidade, que nos parece importante, de fazer ver um trabalho elaborado com igual dedicação e emoção, feitopor mim e pelo nosso grupo nestes anos todos. Alguns destes projectos são muito particulares, com valores diferentes de alguns já construídos. Pareceu-nos interessante fazê-lo mesmo porque vários de nós somos professores de faculdade e temos uma responsabilidade didáctica que gostamos de cumprir.

Projectos no papel tem obras com 50 anos. O que procuraram exprimir nesta exposição?
Mostramos que há um lote de projectos que não se submeteu em todo o seu desenvolvimento às mesmas condições dos projectos que foram construídos, quer porque não chegaram a uma fase de concretização, quer porque eram problemas de natureza diversa.

A mostra está agrupada em quatro temas: “Planos”, “Praças e monumentos”, “Equipamento público” e “Arquitectura residencial e concursos”. Foi por uma questão metódica esta preferência?
Sim. Pareceu-nos interessante que houvesse situações em que se percebesse que, dentro do mesmo tema, havia grandes variações na índole dos projectos, e que dava uma leitura mais coerente e lógica à exposição do que se fosse simplesmente por ordem cronológica. Penso que foi bem arrumada dessa maneira.

Partindo desta viagem pelo passado, sem esquecer o presente, como classifica a arquitectura actual do mundo?
Não acho que se possa fazer uma classificação da arquitectura. Tem-se arrumado a arquitectura em movimentos, idades, estilos, culturas e civilizações… Penso que a arquitectura actual do mundo, directa e imediatamente, é menos caracterizada pelo seu lugar. É muito difícil distinguir o que se faz em Sidney, na Austrália, do que se faz em Montevideo, ou do que se faz no Japão do que se faz em Cape Town. Portanto, é uma arquitectura mais internacional e que corresponde a uma realidade inegável que é a de que a sociedade humana vive cada vez mais da mesma maneira em todos lugares do mundo. Os hábitos sociais das pessoas são cada vez mais idênticas. Portanto, a identificação da arquitectura não se faz mais por uma cultura particular, sobretudo urbana, porque as rurais são outra coisa. Quando existem, não são muito ligadas aos arquitectos, mas à capacidade de construir das pessoas locais. Em Moçambique, a maior parte da arquitectura construída ainda é espontânea, feita por saberes tradicionais, das aldeias e etc. À partida, classifico a arquitectura actual, no mundo, como internacional, cada vez mais indistinta na forma como aparece.    

Seria possível traçarmos a identidade de um povo e de uma cultura a partir da arquitectura que se está a fazer?
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Cada vez menos, e nem ponho sinal negativo ou positivo nisso. A arquitectura, hoje em dia, deve ser caracterizada pela maneira como responde a problemas ambientais, sobretudo. Deve ser diferente uma arquitectura que se faz num país subtropical, como o nosso, do que se faz numa zona fria, como a Sibéria ou Alasca, por razões científicas, técnicas e, sobretudo, ambientais, até mesmo por razões sociais, porque o habitante da Sibéria e de Joanesburgo vivem muito da mesma maneira. A diferença é que um se protege do frio e outro do calor.

Na concepção da arquitectura da vossa equipa pesam mais as componentes estéticas e utilitárias, certo?
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Evidentemente. O utilitário é o termo mais interessante a explorar em muitos aspectos. Mas a arquitectura é diferente da construção, uma função meramente técnica. A projecção arquitectónica, depois de garantir todas respostas aos aspectos técnicos, deve ser atenta aos aspectos estéticos, naturalmente.

Acha que as obras do Projecto no papel podem vir a ser construídas?
Algumas, sim, gostaríamos muito. Outras, não tenho qualquer esperança que venham a ser…

Onde pretenderam chegar com esta exposição?
A aquilo que é o objectivo de qualquer exposição, que é dar a conhecer o que se faz, provocar debate, curiosidade e manter viva a cultura arquitectónica de um país, neste caso, o nosso.

Esta iniciativa insere-se na linha de programação Pensar a cidade, desenvolvida pelo Camões. Por quê tiveram esta pretensão de refectir sobre o espaço urbano?
Esta questão de pensar a cidade é um problema permanente, do qual não podemos fugir, seja qual for a dimensão do projecto. Nós somos arquitectos e urbanistas e assumimos essa responsabilidade. Estes projectos são implantados em tecidos urbanos, com outros edifícios à volta, com ruas e praças que limitam, justificam e orientam a sua concepção. É provável, e já tivemos ocasião de discutir com pessoas que visitaram a exposição, encontrar aspectos que tenham haver com a inserção da arquitectura na cidade.

Esta exposição inclui texto de João Paulo Borges Coelho, um autor que também pensa a cidade por via da escrita. Veja-se o caso da novela Hinyambaan, em parte, uma sátira à nossa capital. Foi uma forma de envolver a literatura?
Temos a noção de que a arquitectura não é um domínio fechado do conhecimento e da especulação intelectual. Deve ser cada vez mais aberta, e é propositado não escolher arquitectos ou críticos de arquitectura para nos avaliar na sua apresentação. Por isso escolhemos dois escritores, João Paulo Borges Coelho e António Cabrita. Com ambos temos uma longa convivência a discutir problemas da cultura geral e da arquitectura em particular. António Cabrita, aliás, publicou um livro em que me faz uma entrevista longa. É uma pessoa muito sensível aos problemas da arquitectura e dos espaços. E João Paulo Borges Coelho é uma pessoa muito sensível, também, à qualidade do espaço da cidade. Como sensível que é, artista da palavra e um grande desenhador, é uma pessoa muito apta a poder reflectir sobre o que lhe pedimos que fizesse, sobre este conjunto de obras e o seu significado.

E o que esta exposição pode permitir ao cidadão, considerando a ideia de que a cidade cresce numa desordem, de acordo com João Paulo Borges Coelho?
Resultado de imagem para jose forjazEstamos a tratar de dois temas nesta exposição. Uma é da cidade que cresce numa desordem, que considero até natural. Nós não temos capacidade administrativa para tomar conta de uma cidade que cresce tão depressa como esta, em termos de população. É impossível. O Conselho Municipal e Maputo não tem meios financeiros, materiais e nem humanos para controlar o que se passa em todos metros quadrados do sector urbano. Então, há muita coisa que acontece e que escapa ao seu controlo e à monotorização desse desenvolvimento. Por outro lado, há desenvolvimentos que podem ser discutidos do ponto de vista da sua adequação. Esta desordem urbana acontece em todas as nossas cidades, moçambicanas e africanas, em que o fenómeno urbano é recente em relação a outras cidades muito sedimentadas como são as europeias e asiáticas. Portanto, é muito difícil controlarmos todo este desenvolvimento. O João Paulo é uma pessoa atenta a estes fenómenos – como é outra gente. Não se tem que ser escritor para se ter sensibilidade a estas questões – e pronuncia-se como lhe compete sobre estes problemas. E a exposição levanta o tema para, de alguma maneira, poder-se discutir, porque a discussão deve ser continuada.

O que mais vos move, quando, num projecto como este, no papel, têm de erguer monumentos?
Trabalhamos porque alguém nos pede trabalho, por variadíssimas razões, até para ganhar dinheiro. Há casos em que nos move a oportunidade de projectar qualquer coisa nova a propor. Não é corrente, mas já fizemos umas duas vezes. Neste momento, se tenho tempo, dedico-me mais a escrever do que a especular sobre a arquitectura, até porque vamos tendo trabalho que nos ocupa suficientemente.

Ocorre à equipa José Forjaz Arquitectos enviar mensagens, quando exerce a actividade arquitectónica ou quando expõe?
Nós expomo-nos, quando expomos, à crítica, à apreciação e até à admiração. Não basta mostrarmos o que valemos, temos de nos expor àquilo que nos ajuda a melhorar. Estes são os pontos fundamentais de qualquer exposição. Se dali sai uma crítica mais acutilante, achamos interessante.

Do mesmo modo que acontece com a narrativa, há espaço para a vossa equipa deixar-se levar pela fantasia durante o trabalho?
Põe a coisa de uma maneira interessante. Fantasia é uma palavra muito ambígua. A arquitectura deve ser sempre o que está para lá da tecnologia e dos aspectos práticos. E nós, se é por aí que entende a fantasia, ao concebermos um edifício, fantasiamos a qualidade poética dos espaços.

No vosso repertório arquitectónico não falta atenção à água. Há alguma influência do Índico nisso?
Resultado de imagem para jose forjazÉ capaz de haver. A água, dito de uma maneira genérica ou de qualquer outra maneira, é um elemento fundamental na vida e cada vez mais crítico. Nós temos uma grande atenção tecnológica àquilo que o edifício pode ter em termos de capacidade de poupar e recuperar a água usada. Isso é uma atenção permanente e temos um alto sentido acerca desse aspecto, porque, muitas vezes, a maior parte dos nossos clientes ainda não estão conscientes dessa questão tão crucial.

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E além da água, a vegetação também merece muito destaque, uma forma de dizer que devemos respeitar a natureza…
É, e muito importantemente. A presença do verde é cada vez mais crucial na concepção da arquitectura. O verde nas coberturas começa a ser corrente em quase todos os quadrantes culturais do mundo. A presença do verde não só é importante pela qualidade do espaço, como também pela regeneração do ambiente. Relacionando com a água, o elemento verde atrasa o escorrimento superficial da água, o que é fundamental, e que nós, em Moçambique, conhecemos bem a consequência funesta do escorrimento não atrasado. Aliás, este é um dos problemas que as nossas cidades têm: a erosão provocada pelas chuvas fortes que temos e que correspondem cada vez mais um desnudamento do terreno em termos de verde. De facto, para nós, o verde, tal como a água, é uma das preocupações iniciais de cada obra.

Já agora, como é que as condições climatéricas interferem na concepção de uma obra, no vosso caso?
As condições climatéricas são fundamentais. Nós partimos daí para conceber qualquer obra. A primeira das considerações é orientação do edifício, a maneira como as fachadas recebem o calor, a luz solar, o vento, a chuva. Trabalhamos conscientemente, sabendo que nos encontramos a uma determinada latitude e sabendo que o movimento do sol tem uma determinada inclinação em cada dia para sítio diferente. Os nossos edifícios devem responder a isso para poupar energia e para se tornarem mais cómodos e confortáveis. Aqueles são os elementos de partida de qualquer projecto. Os outros são, naturalmente, o terreno, o programa funcional do edifício, o valor que se quer investir. O resto é uma complementaridade de factores que a temos de responder.

Sentem-se na condição de estar a gerar uma vida, quando concebem um edifício?
Sentimo-nos a responsabilidade de influenciar vidas das pessoas, quando estamos a desenvolver o nosso trabalho. Certamente. E essa é uma das responsabilidades mais difíceis, porque a arquitectura afecta a vida das pessoas em muitos aspectos e todos os dias.

E isso passa, necessariamente, em sonhar o que as pessoas não conseguiram.
É bem dito. É exactamente isso. Gostaríamos de ser capazes de realizar os nossos sonhos dos clientes.

Resultado de imagem para jose forjaz Tem um projecto para a Praça da Independência, que venceu um concurso público em 2011. O que vê, quando contempla aquele espaço?
Olho para aquele espaço com tristeza, muita, porque o que lá está é o pior que poderia estar. Aquela praça é um desastre urbano, tanto esteticamente como em termos de circulação automóvel. Sobretudo, é um espaço deserto, vazio, inóspito e que não oferece nada à cidade. E foi isso que, dentro das condições que nos impuseram, tentamos responder, a essa série de aspectos negativos, pensando num projecto de praça que fosse acolhedora, fresca e tanto quanto fosse possível verde, enquadrando a figura de Samora Machel, que está agora ali posta, no sítio errado e com altura errada. E aquele deveria ser o espaço que mais caracterizaria a sala de visita da cidade. É pena estar no estado em que se encontra.


Perfil
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José Forjaz nasceu em 1936, em Coimbra (Portugal). Veio ao país muito jovem, e trabalhou como arquitecto Pancho Guedes. Mais tarde, obteve o diploma de Master of Science in Architecture na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA). Entre 1975 e 1985, foi Conselheiro do Ministro das Obras Públicas e Habitação e Secretário de Estado do Planeamento Físico. Foi professor convidado das universidades italianas, portuguesas e norte-americanas. É fundador da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da UEM, onde lecionou. É titular do escritório José Forjaz Arquitectos e conta com dezenas de projectos: residências de embaixadores e chefes de estado, pólos universitários e culturais, Campus da Universidade de Botswana e Suazilândia, o Parlamento Pan-Africano, na África do Sul.