Locarno é mais do que uma cidade
para Licínio Azevedo, é, na verdade, um espaço de concretização de sonhos. E só
podia ser, pois é naquele ponto do mundo que decorre anualmente um dos cinco
maiores festivais de cinema. Há dois anos, naquela cidade turística da Suiça, o
realizador moçambicano viu a oportunidade de transformar o romance “Comboio de
Sal e Açúcar” em filme.
O projecto ganhou dois dos três
prémios disponíveis para apoiar a realização dos projectos cinematográficos de
vários países num fórum de financiamento denominado “Open Doors”. Foi
exactamente na 67ª edição do certame que o filme foi subsiado perante um júri
europeu, que envolvia televisões e agências governamentais. Entre 900 projectos,
“Comboio de Sal e Açúcar” foi um dos dois guiões premiados, o que garantiu o
início da sua produção.
Depois de Locarno – onde teve a
estreia internacional – o filme vai seguir por outros festivais. Em Outubro,
vai participar no Festival do Rio – maior montra do cinema ibero-americano, que
exibe filmes de Portugal, Espanha e América Latina –, depois está convidado
para Índia, no Festival de Goa, já com 60 anos de história e para vários
festivais que para Licínio Azevedo não é novidade, pois em alguns deles já
amealhou vários prémios. “Virgem Margarida” é um dos filmes que foi bastante
agraciado.
Na segunda fase da mostra, será
exibido para vários países onde estão os co-produtores – Suiça, França,
Portugal, Brasil, África do Sul e Moçambique – e outros países com
distribuidores já garantidos.
A terceira fase também já está
assegurada. A divulgação do filme, neste período, será em África, onde 17
países serão contemplados. “Eu acho que o filme vai cumprir com os meus ideais,
que é chegar ao grande público e sair desse esquema restrito que são os
festivais”, finaliza.
A longa-metragem de 90 minutos
que tem como principal elenco os moçambicanos António Nipita, Sabina Fonseca e
Melanie Rafael, o angolano Matamba Joaquim e o brasileiro Tiago Justino conta a
história de centenas de moçambicanos que viajavam de Nampula a Malawi para
trocar sal por açúcar. É um retrato dramático dos episódios da guerra civil que
inclui também uma história de amor.
“Comboio de Sal e Açúcar” é
baseado no livro homónimo que Licínio Azevedo escreveu há mais 15 anos.
Salas de cinema: rentabilidade
para a sétima arte
“A rentabilidade do cinema
depende da capacidade dos produtores conseguirem ter distribuidores”, assegura
Azevedo, acrescentando que que o cinema americano chega ao “grande público”
porque para cada um dólar investido para na produção de um filme, as vezes são
100 milhões, há um outro dólar investido na distribuição quando se faz a
publicidade e se chega às salas. “Nós infelizmente não temos isso. Já para
conseguir um milhão de dólares para fazer um filme de guerra é muito imagina o
dinheiro para distribuição”, lamenta. O realizador diz que esta triste
realidade abala o mercado africano, da América latina e grande parte da Europa.
Ou seja, um filme só é rentável quando há muitas salas de cinema e se o público
conseguir ver os filmes. O contrário disso, não haverá recursos para a
materialização de outros filmes, excepto guiões de realizadores já conhecidos.
E repete-se o ciclo, realizadores desses países voltam a concorrer para serem
premiados, tal como foi agora com “Comboio de Sal e Açúcar”.