Orlando Mendes (também Osvaldo
Mossuril e Zeferino A. Nhacale), de nome Orlando Marques de Almeida Mendes,
nasceu na Ilha de Moçambique, a 4 de Agosto de 1916, e morreu em 1990, em
Maputo. Mendes foi um eclético escritor, tendo publicado poesia, romance,
teatro, crítica literária, ensaios e infanto-juvenis. A sua imensa e
diversificada produção literária, influenciada, no início, pelo pragmatismo do
neo-realismo do movimento de Presença, é caracterizada ideologicamente pelo
esforço de instauração de um espaço literário nacional, como constata Agostinho
Goenha.
Em Lourenço Marques (agora
Maputo), Orlando Mendes frequenta até o sétimo ano do Liceu. Até 1944, é
funcionário dos Serviços de Fazenda, quando segue para Portugal, onde
licenciou-se em Ciências Biológicas, pela Universidade de Coimbra. Exerceu,
ainda na universidade, funções de Assistente de Botânica. Regressado a
Moçambique, em 1951, passa a pertencer ao quadro de funcionários dos Serviços
de Agricultura de Moçambique, e depois, a exercer funções de investigador de
medicina tradicional, no Ministério da Saúde. Nos últimos anos de sua vida, foi
redactor na revista Tempo.
A estreia de Orlando Mendes
acontece em 1940, com Trajectória (edição de autor), tendo depois
publicado Clima (1951), Carta do Capaz da Estrada (1960), Depois
do 7º Dia (1963), Portanto Eu vos Escrevo (1964), Portagem
(1966), Véspera Confiada (1968), Um minuto de Silêncio (1970), Adeus
de Gutucumbui (1974), A Fome das Larvas (1975), País Emerso I
(1975), País Emerso II (1976), Produção Com que Aprendo (1978), Lume
florindo na forja (1980), Sobre Literatura Moçambicana (1982), Papá
Operário mais Seis Histórias (1983), As faces visitadas (1985), O
menino que não crescia (1986), Telefonemas a calhar e outros contos
(1995) e Minda (2001), publicado postumamente pela Associação dos
Escritores Moçambicanos.
Orlando Mendes teve
colaboração literária dispersa em jornais e revistas como Itinerário, Tempo,
Voz de Moçambique, A Tribuna, Caliban, Notícias, Charrua e Forja, de
Moçambique; e Vértice, O Diabo, Mundo Literário, Seara
Nova, Colóquio/Letras e África, de Portugal. Está, também,
representado em inúmeras antologias de poesia e prosa. Recebeu, durante o seu
percurso, o “Prémio Fialho de Almeida”, dos Jogos Florais da Universidade de
Coimbra, em 1946, e o primeiro prémio de poesia no Concurso Literário da Câmara
Municipal de Lourenço Marques, em 1953.
Depois da Independência e até
a sua morte, Mendes promoveu a literatura moçambicana, dirigiu a Associação dos
Escritores Moçambicanos e teve sempre uma participação cultural muito activa.
Hoje, se estivesse vivo,
Orlando Mendes completaria 105 anos.
A extensa produção literária
de Orlando Mendes não se insere, como aponta a crítica, no proto-nacionalismo
de Noronha ou Noémia, no “elogio da moçambicanidade”, por assim dizer, e muito
menos no movimento de “ex-colonização da literatura”, preocupação de Rui Nogar
e José Craveirinha, entretanto, ela [a produção] é, de certo modo, de denúncia
e de revolução, então, uma produção continuadora. Embora seja imensamente
associado ao neo-realismo português, Mendes – que durante a sua estada em
Portugal terá tido contacto com escritores como Afonso Duarte, Armindo
Rodrigues, Miguel Torga, Fernando Namora, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Érico
Veríssimo, etc. – recusava-se a pertencer a uma corrente, afirmando que a sua
literatura era uma “expressão anticolonialista”.
A obra de Orlando Mendes é,
quase toda ela, “assombrada” por um engajamento e exaltação com/do nacional,
ele insurge-se, busca “contundir o inimigo” com o seu levantamento social,
vertentes que, aliás, compõem o que Agostinho Goenha chama de “concepção
marxista do fenómeno literário”.
O seu projecto poético,
ideológico nos últimos anos, é tenso, e no dizer de Alfredo Margarido, uma
mescla de “denúncia de alienação do Homem” – negro ou branco (vide. Portagem)
– e o enganchamento dos grupos étnicos moçambicanos. A obra de Mendes (poesia e
prosa) é também identificada pelos traços de oralidade, ele funde o português
elegante com o português local, ajuntando os chamados moçambicanismos.
Para vários pesquisadores, a
obra de Orlando Mendes é indispensável para o desenvolvimento e para o estudo
da literatura em Moçambique.
Textos
de Orlando Mendes
Exortação
Jovem, se tens exercícios de
literatura
escritos há mais de um mês,
destrói-os.
Rasga-os ou queima-os de
preferência
(consta ser universalmente
mais ortodoxo)
e se a chama te chamuscar
unhas e pele
e as sujar a cinza, não
queixes a dor
e lava-te. Destrói-os.
Guarda-os todavia
fiéis na memória, palavra por
palavra,
para que possas transmiti-los
a um amigo
quando depois do venal acto de
amor
forem também vender a
irresistível suspeita
da tua voz trémula e dos teus
outros actos.
Mas não deixes de escrever.
Peço-te que não.
In: Adeus de Gutucumbi,
p. 25
Em
África
Quantos de nós
andam por aí ensimesmados
e medem o tempo e o
comprimento dos passos que dão
sabendo o princípio e o fim
da sua própria caminhada
imutável
e meneiam de vez em quando a
cabeça
pelo sim ou pelo não.
Quantos de nós
exaltam o delírio dum poema
e o dizem entre dentes
deixando circular
tranquilamente o sangue nas veias.
Mas ainda é preciso denunciar
os cantos das imagens virtuais
e desenraizar com o gume da
palavra nua
as últimas consequências
sentimentais
embandeiradas dentro das
verdes searas
já é preciso colher e
distribuir novas sementes
e lançá-las por mãos
proletárias à terra comum
e conhecer o mecanismo da arma
que se empunha
e rigorosamente apontar ao
alvo
não estando sós.
[…]
Quantos de nós
têm que reaprender as
distâncias e acertá-las
à custa do timbre da sua voz
para que todos cantem e
accionem
a luta de libertação e a
liberdade conquistada
com o impacto de balas.
In: Lume Florindo na Forja,
1980
Excerto
de Portagem (1966)
A velha negra sai da palhota e
fecha os olhos doridos pela luz crua do sol. Depois abre-os lentamente e a boca
encarquilha-se-lhe num sorriso aparentemente sem sentido. No terreiro não há
ninguém que lhe faça lembrar coisas do mundo que está esquecendo. Tudo quanto
ela entende do exterior é aquele ranger medroso dos ramos nus da árvore
mirrada, sacudidos pelo vento quente e vagaroso que passa e se esconde na
terra.
Tremem-lhe as mãos secas
agarradas ao bordão nodoso. Quer alongar a vista para lá do capim ressequido
que balouça cadenciadamente, mas abana a cabeça, desiludida. Dia a dia, a vista
se limita mais nas expressões para os seus afectos. Amarfanha a capulana até à
coxa enrugada e, traçando as pernas, deixa cair mansamente o corpo magro para o
chão.
Alima geme de cansaço. Ou de
tédio? Nem ela saberia dizer. Ajeita-se encostada à paliçada da palhota. A
sonolência começa a perturbá-la. Todos os dias, à mesma hora da manhã, a velha
vem ali sentar-se e promete sempre não se deixar adormecer. Também agora tenta
fugir ao sono inimigo, que ela tem medo de perder de vez a contemplação da
planície mordida pelo sol. De ano para ano, a planície diminui de extensão
diante da fadiga dos seus olhos. E ela pensa que lhe vão roubando
misteriosamente o mundo de ano para ano.
Dormita uns instantes sem
tempo, para logo acordar sobressaltada. Reconhece o chão pisado por três
gerações de negros. Fixa os olhos mortiços nos ramos descarnados do cajueiro
plantado pelo avô, o escravo Mafanisse, no dia da sua libertação. Recordando, é
depois o mar que lhe aparece, um mar de ondas bravias que foi a fronteira da
imigração dos negros para o sul, na grande seca do ano em que lhe nasceu a
filha Kati. Kati casou com o capataz dos mineiros do Marandal, depois de ter
gerado e parido um filho de branco. Aí começou a solidão enorme da velha Alima.
Solidão do simbólico cajueiro entre a erva rasteira e os galhos agrestes das
micaias. E é na planície que fica o mundo moribundo da vida toda da negra
Alima.
A velha ainda se lembra de
que, lá longe, a planície se esvai no sopé da serra do Marandal. Vieram os
brancos com as suas máquinas para abrirem os grandes buracos na terra e tirar o
carvão que os negros carregam para as vagonetas. Mas Alima nunca saiu da
planície senão no ano longínquo da grande emigração. Os negros mudaram as
palhotas para a nova povoação fundada no Marandal. E tentaram levar a velha.
Ela, porém, é já a única pessoa viva que ouviu da boca dos escravos a história
recontada do mundo da planície. E recusa-se a abandoná-la. A planície quase
despida não atrai sequer as feras e ninguém já por ali passa, que o transito
para a mina se faz pelo caminho da berma da serra. Solitária, a velha Alima
tornou-se dona humilde e incontestada da planície que não tem préstimo para
mais ninguém.