sexta-feira, 8 de junho de 2018

Eusebi (a)


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A arte e o desporto juntaram-se no retrato de Eusébio da Silva Ferreira, enquanto jogador de futebol. A longa-metragem Ruth, realizada por António Pinto Botelho e com argumento de Leonor Pinhão, narra a história da maior referência do futebol moçambicano e português de todos os tempos. A obra da Leopardo Filmes, com 105 minutos, foi exibida ontem à noite (6) nas salas Lusomundo da cidade de Maputo, com a presença da actriz que desempenha o papel da mãe do “pantera da Mafalala”: Josefina Massango.
Segundo a actriz, em grande plano nesta história sobre a disputa do passe de Eusébio, envolvendo dois grandes clubes portugueses – Benfica e Sporting –, ser a mãe fictícia do futebolista foi um grande desafio, uma responsabilidade gigantesca, afinal, não se está a falar de uma figura qualquer. É mesmo de Eusébio, e toda a iniciativa de tentar levar-lhe às telas torna-se em princípio soberba.
Ao mesmo tempo que Ruth é a representação do “pantera negra” no período em que deixa a então Lourenço Marques para vencer na metrópole, igualmente, a longa-metragem narra a história de um conjunto de fenómenos que acontecem à volta do futebol. Este é um filme que reflecte a forma como as sociedades, seja moçambicana ou portuguesa, têm tanto de comum como de semelhante. Assim, no papel interpretado pelo actor com naturalidade guineense, Igor Regalla, Eusébio é a ponte que aproxima épocas, latitudes e rivais – atiçando mais as animosidades –, mostrando que, de facto, o futebol é mesmo o ópio do povo.

Resultado de imagem para eusebio filme rutheNeste filme, Eusébio não dá nenhum toque na bola de futebol. Assim quis o realizador, movido por uma explicação partilhada por Ana Pinhão Moura, a produtora Executiva do Ruth que também esteve na ante-estreia: “Tudo começou com a ideia de prestar uma homenagem ao Eusébio – já havia um filme sobre a Amália e sobre a Nossa Senhora de Fátima. Faltava um filme sobre Eusébio, outro ícone nacional que é moçambicano e querido para todos nós portugueses. Quando esta ideia surgiu, tentamos fugir ao óbvio, que é fazer um filme com o actor a jogar futebol, até porque nunca iríamos encontrar um actor que jogasse futebol como Eusébio. Pensamos que até ficaria mal. Então resolvemos fazer uma história sobre Eusébio com um retrato destes dois países”.  
A escolha de Josefina Massango, para este filme, aconteceu depois de um casting, no qual a moçambicana foi logo aprovada por ser uma excelente actriz. Além disso, de acordo com Ana Pinhão Moura, a ideia foi sempre escolher uma actriz que fosse capaz de representar a força, inteligência e a coragem que a mãe de Eusébio, que conseguiu gerir o princípio de vida do filho.
Imagem relacionadaRuth - nome atribuído a Eusébio com o interesse de distrair o Sporting, que também estava interessado no passe do jogador - foi rodado durante cinco semanas em Lisboa e duas semanas e meia em Maputo. Além de Josefina Massango, o filme conta com participação de outros actores moçambicanos, como são os casos de Shaquile Adamugy, que faz o papel de Eusébio ainda criança, e Melanie de Vales. 
Embora a bola em campo não seja a ideia desta produção cinematográfica, no final do filme, aí sim, aparecem imagens de alguns jogos do verdadeiro “pantera negra”, que, mal viu o treino do poderoso Sport e Lisboa e Benfica, disse a um colega que iria jogar de caras.Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25 de Janeiro de 1942 e morreu no mesmo mês do seu nascimento, no dia 5, em 2014. A produção do filme contou com apoio do INAC.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

"A sobressalente"


100 páginas fazem a quarta obra literária de Dany Wambire: A mulher sobressalente. A coleccção de 10 contos será lançada em Minas Gerais, no Brasil, a 1 de Maio, no âmbito da 13ª edição do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços). Na verdade, Wambire volta a participar no festival depois de, ano passado, lá ter estado acompanhado por outros autores moçambicanos: Paulina Chiziane, Ungulani Ba Ka Khosa, Mbate Pedro, Sangare Okapi e Lucílio Manjate.Ainda que já tenha lançado o seu primeiro livro no Brasil, A adubada fecundidade e outros contos, desta vez, o escritor leva um título inédito, com uma mão cheia de contos que retratam a mulher, enlevando a condição do eu feminino enquanto poder de resistência, de força e de busca pela liberdade. 
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Com a temática que envolve alguns textos e mesmo com o título da obra, Dany Wambire problematiza a ideia de a mulher ser, muitas vezes, tratada como um sujeito secundário, ou seja, sobressalente, numa clara analogia com o pneu que é guardado apenas para determinadas circunstâncias. Ao questionar uma realidade, nas narrativas da obra, a personagem feminina consegue superar-se, em alguns casos. Mas noutros, nem por isso. Algo propositado. Com certos desfechos, o que mais excita Dany Wambire é a possibilidade de deixar ficar um espaço de reflexão à volta do qual os leitores podem pensar sobre um conjunto de situações que muitos julgam ser normais. Para contrariar essa normalidade quase institucionalizada, o escritor investe na inserção de passagens que revelam como se perpetuam a subjugação da mulher.
A mulher sobressalente (cujos títulos de alguns contos são “O linchamento dos dólares”, “O bêbado corrigível”, “Melissa”, “O analista drogado”, “Casal de brincadeira”) foi escrita em três meses, logo depois da participação no Flipoços do ano passado. A obra foi escrita na Beira, onde o autor vive, mas há uma influência de perspectivas adquiridas no Brasil. Além de lançar sua obra mais recente no Flipoços, e, claro, na sede da editora Malê, a que chancela o livro, Dany Wambire vai envolver-se em mais actividades literárias no Brasil, como palestras e conversas (sobre o seu percurso literário, seu envolvimento na Associação Kulemba e na revista Soletras) com estudantes de algumas universidades: de Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Resultado de imagem para Dany WambireTudo isto faz parte de uma eterna luta, a de levar o livro a mais leitores. “Estas oportunidades dão-nos força para continuarmos a produzir, porque, às vezes, ficamos divididos, interrogados sobre se vale ou não a pena escrever. Este tipo de eventos dá-nos a sensação de que o que produzimos tem algum valor. Por essa razão, sinto-me sortudo por, sendo tão jovem, estar a gozar este tipo de oportunidade, afinal, eventos como Flipoços ajudam-me na construção do meu processo de escrita. Nestes eventos recebo mais do que partilho”, confessa Dany Wambire, que vai ficar duas semanas na América. Depois de gozar o Flipoços, Wambire regressa à pátria amada, onde vai lançar o mesmo livro no Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo, no dia 15 de Maio, no entanto, sob a chancela da editora Fundza, sedeada na Beira.
Dany Wambire nasceu na cidade da Beira em 1989. É mestrado em Comunicação e licenciado em Ensino de História. É autor de A adubada fecundidade e outros contos, distinguido com menção honrosa no Prémio Internacional José Luís Peixoto (2013); O curandeiro contratado pelo meu edil, colectânea de crónicas; Quem manda na selva, infanto-juvenil e A mulher sobressalente.